… Por sobre mim e os meus pequenos problemas lá estava o céu. Diminuí os passos sobre a areia e, por fim, parei e olhei para o espaço.
De além-horizonte norte a além-horizonte sul, de além-terra a além-mar, reinava calmo e sereno, o céu. E reparei em algo que nunca observara antes. Que o céu está sempre em movimento, mas nunca some. Que acontece o que acontecer, o céu está sempre conosco. Que o céu não pode ser afetado. Meus problemas para o céu não existiam, nunca tinha existido, nunca existiriam.
Que o céu não interpreta mal. Que o céu não julga. Que o céu, muito simplesmente, existe. Existe, quer desejamos aceitar essa fato ou enterrar-nos debaixo de mil quilômetros de terra ou mais fundo ainda, sob o teto impenetrável da rotina.
Aconteceu um ano mais tarde, eu estar por qualquer motivo em Nova York, com tudo correndo mal, com apenas vinte e seis cents no bolso, com uma fome louca e com vontade de estar muito longe daquelas ruas de prisão de Manhattan, com suas janelas gradeadas e suas portas trancadas a sete chaves. Mas aconteceu que olhei para cima, coisa que ninguém faz em Manhattan, e de novo, como no ano passado, junto ao mar – só que agora por sobre os canyons de Madison Avenue – lá estava o céu. Sereno. Igual. Cálido e acolhedor como um lar.
Que é que você diz a isso? Pensei. Por mais enrolada, complicada ou mal-sucedida que seja a vida de um piloto, ele sempre tem a sua espera um lar.
Sempre o espera a alegria de voltar a voar, de olhar para as nuvens e gritar: Voltei !
– Ora, desça das nuvens, bote os pés no chão! – dizem as pessoas.
Mas, em ocasiões tão diversas quanto naquela praia deserta ou numa rua super movimentada de Manhattan, eu fui transportado do mais negro desespero para a liberdade. Da irritação, da raiva e do medo para a constatação:
– Ora o que me importa? Eu sou feliz só para olhar para o céu.
Esse tipo de coisa talvez aconteça porque os pilotos, digam o que disserem, só se sentem felizes quando estão em casa, e só se sentem em casa quando, de uma maneira ou outra, podem tocar o céu.
Richard Bach
Qual piloto não concordaria com Richard Bach?
Richard Bach : (Oak Park, Illinois, 23 de junho de 1936) é um escritor de nacionalidade norte-americana. A principal ocupação de Bach foi como piloto reserva da Força Aérea e praticamente todos os seus livros envolvem o voo de certa maneira, desde suas primeiras histórias sobre voar em aeronaves até suas últimas onde o voo é uma complexa metáfora filosófica. Bach alcançou enorme sucesso com o livro Fernão Capelo Gaivota, sucesso este não igualado por seus livros posteriores; entretanto, seu trabalho continua popular entre os leitores.
CURIOSIDADE: O livro Fernão Capelo Gaivota trata-se de uma gaivota que aspirava realizar manobras ousadas de voo, a história inspirou a música do Blindagem – Gaivota. Como sabemos? Porque um dos autores da letra nos contou (Paulinho Juke! Abraços saudosos em ti) e nós não aguentamos guardar a informação só com a gente. Confere a lindeza da composição.
Sou gaivota por sobre o mar
Meu voo é volta de qualquer lugar
Desapareço no tempo e no ar
Antes que um olho consiga piscar
Num voo razante o que eu vi
Não dá para acreditar
Minhas penas tremendo
Faço parte do vento
Vou me embora correndo
Se acalme…
Uma vez provado o voo no homem ele estará condenado a vagar pela terra olhando para o céu, pois lá estiveste e para lá queres voltar. Leonardo Da Vinci
No ano em que o mundo fala sobre os 500 anos da morte do grande inventor renascentista Leonardo Da Vinci, um visionário também apaixonado pela possibilidade do homem voar, que perseguiu essa ousada ideia loucamente, que estudou ventos, aerodinâmica e pássaros, deixando um vasto legado de engenhocas quase voadoras, em pleno século 15. Que antecipou a criação de helicópteros e aviões, é que resolvemos contar um pouco sobre a nossa invenção; O simulador de voo. Não apenas porque completa 500 anos do “the end” de Leo, mas especialmente porque estaremos neste sábado (14/09/2019) embarcando para o berço do parapente, a França, com destino à pacata cidade de Saint Hilaire du Touvet, para participar do evento mais tradicional do parapente, Coupe Icare em seu 46º ano de edição. Com uma infinidades de atividades, como Le Icares Du cinema, um festival de filmes de montanhas e voo e que inclusive o filme brasileiro Ciclos já conquistou o prêmio, fazem parte da Coupe. O festival já esta em sua 37º edição. Confere o teaser 2019!
Fabricantes, editoras, expositores, modalidades e shows aéreos, música, fazem parte do pacote Icare. Mas o que mais atrai a mídia do mundo inteiro é o Icarnaval, que por aqui chamamos de festival de alegorias, onde os pilotos decolam com fantasias criativas e competem para receber o prêmio de melhor figurino, digamos assim.
A Coupe Icare 2019 faz uma grande homenagem ao Da Vinci, como o gênio absoluto do sonho humano de voar, com inúmeras atividades e exposições na temática do inventor, inclusive prêmio especial para o melhor Leonardo da Vinci fantasiado.
É nessa super vibe que a nossa invenção será apresentada ao mundo dos ares, junto com a nossa parceira Sol Paragliders.
Sugestivo não? Muito! Podemos dizer que é uma super motivação estarmos expondo a nossa criação exatamente neste ano.
Em águas passadas, 2010, lançamos o primeiro protótipo do simulador de voo, com o objetivo de aperfeiçoar as tomadas de decisões de cada aluno(a) no nível avançado. A engenhoca fornecia a resposta correta aos comandos efetuados pelo usuário, de maneira a agregar efetivamente no aprendizado de pilotagem e o comportamento de um parapente. Beneficiou a evolução de dezenas de pilotos.
Em novembro de 2018 iniciamos um novo projeto, em conjunto com o engenheiro Fernando Patrick Pilato. O novo projeto já passou por centenas de melhorias, incluiu atualização de software e hardware, um simulador moderno, recursos internos e tecnologias de última geração, como óculos 3D, Wi-fi, foram algumas das mudanças. Totalmente diferente do primeiro, tomando uma nova forma semana por semana, originando a nova empresa: PLANAR Paraglider Simulator, feita por pilotos para pilotos e amantes do voo.
O simulador PLANAR entra no mercado mundial como único, com recursos completos que atendem desde o público geral, piloto iniciante, piloto avançado, escolas, clubes de voo, palestrantes conforme a necessidade de cada usuário.
Fernando Fernandes aprendendo a voar no simulador de voo Vento Norte / Planar. Programa apresentado no Sobre Rodas, do Esporte Espetacular.
Para escolas e novos pilotos o aumento da segurança e otimização do aprendizado. Possibilita o posicionamento de voo e regulagem selete. A compreensão do futuro piloto nas técnicas de aproximação e pouso antes mesmo de ver a rampa que irá voar. Aprimora os voos em ascendentes de encosta – lift.
O desenvolvimento completo com leituras de eletrônicos, GPS e variômetro, leitura de solo, técnicas de navegação aérea, técnica de centralização de correntes térmicas, voo de cross country.
Treinamento para competição, com até 25 pilotos on-line.
Gráficos personalizados de quaisquer rampas do mundo.
Desenvolvimento de parapentes de várias marcas e categorias, considerando performance e comportamento.
O Simulador também pode ser alugado para feiras, eventos, clubes de voos e demais situações de entretenimento. Uma ferramenta para a divulgação esportiva, captação de novos alunos, captação de recursos para Clubes de voo, dinâmica em palestras motivacionais sobre medo, superação e desafios de maneira ativa, quebrando a passividade de uma palestra.
Entre tantas outras possibilidades advindas dos óculos de realidade virtual, vídeo que permitem que o usuário mergulhe no mundo dos pássaros e sinta as sensações de voar livre.
A previsão para abertura de vendas é
Para uso em eventos, palestras, etc – Dezembro de 2019.
Para uso em escolas, pilotos e etc – Abril de 2020. para abril de 2020.
Até lá o simulador segue percorrendo lugares em busca de aperfeiçoamentos, tecnologias, experiências e testes.
O amor a qualquer coisa é produto do conhecimento, sendo o amor mais ardente quanto mais seguro é o conhecimento. Leonardo Da Vinci.
Uma vez descoberto o voo no homem, ele estará condenado a vagar pela terra olhando para o céu, pois descobriu o porque os pássaros cantam. Leonardo Da Vinci.
Grupo no WhatsApp – Notícias dos Ares
No aplicativo do Whatsapp temos um grupo denominado “Notícias dos Ares”. Indicamos que entre no grupo caso pretenda fazer o curso ou se informar sobre.
Neste grupo apenas os administradores (nós) contamos o que esta rolando aqui na escola, como aulas práticas, expedições, festas, aulas teóricas, artigos esportivos, dicas variadas e outras coisitas que achamos legal. Ah, e é bom você saber que escrevemos muito pouco por lá, assim não atrapalhamos o cotidiano dos membros do grupo.
Para participar do grupo basta clicar aqui e será automaticamente direcionado para o grupo do “zap” Notícias dos Ares.
Encontrei esta divertida crônica na página 44, do livro Trinta e Poucos, do autor Antonio Prata. Compartilho com vocês, porque tudo que é do ar, inspira.
O titulo é “Expiar”
Estava trabalhando na varanda, com o laptop no colo, quando ouvi a batida, leve e abafada, no jardim. Olhei para a frente ainda a tempo de ver o pequeno borrão quicando na grama. Demorei um pouco para entender do que se tratava: um passarinho, recém-caído do céu, agora jazia inerte a dois metros de mim. Morto?
Eu, nascido e criado em apartamento, jamais havia presenciado a morte de um passarinho. Então é assim? Uma bela tarde tá ele lá voando, minhocando suas caraminholas e, ploft!, despenca das nuvens?
Não deixa de ser poético. Sempre discordei desse povo que torce pra morrer dormindo. Quando a indesejada das gentes chegar, também quero ser pego em pleno voo; aos cento e vinte e quatro anos, claro, mas bem desperto, pra poder olhar ao redor uma última vez, dizer, “ah, então era isso?”, encarar a estraga-prazeres de frente, dar-lhe uma banana e, enfim, deixar de existir.
Um movimento na grama, contudo, me sugeriu que ainda era cedo para as funestas divagações: o pássaro não estava morto. Com dificuldade, se ergueu e assim ficou, petrificado. Da minha cadeira, vi seu coração pulsando, aflito com as últimas voltas do pião. Levantei com cuidado pra não assustar o bicho, e fui até ele. Nem se mexeu. Mais alguns suspiros e já era, pensei, consternado.
Passarinhos são os padroeiros dos cronistas. Machado de Assis comparou o folhetinista ao colibri, “que salta, esvoaça, tremula, […] e espaneja-se sobre todos os caules suculentos.” O primeiro livro de Rubem Braga foi O conde e o passarinho. O último do meu querido Humberto Werneck chama-se O espalhador de passarinhos. Fernando Sabino tem uma crônica antológica sobre sabiá. “Bichos do sítio”, um dos lindos textos do recém-lançado Certos Homens, do Ivan Ângelo, começa com um urubu e termina com uma galinha. (Passarões, é verdade, mas pássaros, mesmo assim).
O mínimo, portanto, que eu podia fazer pelo nobre colega era proporcionar alguma dignidade a seus instantes finais. Pensei em botar um Chet Baker pra tocar, mas me pareceu exagerado. (Além do mais, vai saber de seus gostos musicais? Imagino não haver nada pior, na hora da morte, do que uma trilha sonora equivocada) Me contentei em lhe trazer um pires com água fresca. (Não sei por quê, mas me veio a ideia de que morrer dá uma sede danada.)
Por quinze minutos ficamos ali, frente a frente. Um quarto de hora durante o qual ele não moveu, literalmente, uma pena. Então, como se fosse a coisa mais natural desse mundo, chacoalhou a cabeça, gingou o pescoço no melhor estilo Axl Rose, deu um salto sobre o pires um sinal inconteste de vitalidade, e, sobretudo, de humor: um belo e alvinegro cocô de passarinho, teste de Rorschach em que vi estampada a minha ignorância sobre a morte, sobre a vida e, acima de tudo, sobre passarinhos.
Voltei à poltrona, pus o laptop no colo e retornei minhas chãs escrevinhações.
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Antonio Prata é escritor, cronista e roteirista brasileiro de cinema e novelas. Tem 10 livros publicados, entre eles o Meio Intelectual, Meio de Esquerda – Felizes quase para sempre – Nu de Botas – Trinta e poucos.
Já sabem, adoramos compartilhar livros, então caso tenha interesse em algum do Antonio, e você seja Vento Nortenho e Nortenha, às ordens, ou melhor a disposição para empréstimo.
Voltemos, o Antonio escreve semanalmente para a Folha de S.Paulo, na edição dos domingos, na coluna Cotidianos e possui um blog no mesmo jornal com suas crônicas: Colunista Antônio Prata.
Mais do que qualquer escritor em atividade, Prata é cultor do gênero que fincou raízes por aqui, consagrado por gigantes do porte de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues.
Estamos a poucos dias de começar o maior encontro feminino da história do voo livre: o Saia Para Voar!
Conhece? Não?
Eu te apresento, quer dizer, o Canal OFF apresenta:
Pela primeira vez o encontro será realizado nos ares do Sul, na acolhedora cidade de Pomerode, durante o feriadão de 12, 13 e 14 de outubro e a pouquíssimos quilômetros dali rolando a Oktoberfest, de caso pensado. Cla-ro!
Na loucurada toda que é organizar um evento deste porte, conseguimos fisgar a idealizadora do movimento, Pri Saran, entre um check-in e outro check-out, aos pés do Vulcão Villarica, e em outro segundo em meio a Grande Santiago, a caminho de retornar para a sua amada terrinha de Tupiniquins, levantando voos, com e sem trocadilhos, para falar sobre o que à inspira voar e à unir a mulherada alada.
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Decolando de madrinha no casamento dos pilotos Janaína e Jorge, no Vale do Paranã, Brasília. O casamento foi lindo e no pouso, a maioria chegou voando.
Caro(a) leitor(a) sentiu-se perdido nos lugares mencionados?
Imagine o que é conversar com a mineirinha, de Santa Rita do Sapucaí, que testa seu senso de elasticidade, elevando-o tanto, que quanto mais se olha, mais aparece coisas para ver e falar. Implacavelmente sensível, só poderia se declarar escorpiana dos pés à cabeça.
Pri Saran contribuí com o seu biógrafo. Analista de sistemas, especialista em marketing digital, coach de talentos, empreendedora incansável, transformou sua casa no UaiFlyHostel, para receber os amigos de asas, pertinho de uma senhora respeitável rampa de voo livre. Diz que voa menos que queria, e mais do que achava que algum dia conseguiria. Afirma que até então, mais agitou que voou. Em mais de 10 anos de voo livre, fez parte da organização de mais de 20 eventos de destaques no esporte (um grande aprendizado), e voou menos de 50 horas. Segundo ela, seu foco para o ano seguinte é: a prática intensa do esporte, quando pretende superar não somente seus números, mas muito mais de si mesma.
Terrivelmente exposta a vida (que coisa boa né!), quando estava pertinho de completar mais uma primavera, no ano passado, o tal inferno astral chegou causando mesmo! Se viu como alguém que só corre de um lado para outro, trabalhando, trabalhando e trabalhando, enquanto a vida passava. Deu ruim! Essa coisa de refletir que agora seu tempo ficou menor para realizar os sonhos, e a depressão entrou no recinto. Deu boa! A tal pitada de pólvora, engenhosamente colocada para explodir quando pisasse em seu aniversário. Ela pisou, a pólvora explodiu, e o resultado disto tudo é que a exuberância da sua mente a arremessou em uma viagem pela América do Sul, praticamente a bordo de imprevistos que ocorressem pelo caminho, sem abandonar nesses 6 meses de andarilha, algumas importâncias de sua vida. Entre seus tesouros, seu filho Gabriel, de 16 anos, e o Saia Para Voar, movimento que inspira e fortalece tantas aladas, que já estão a contar os dias para o encontro.
Curiosidade: Mulherada Alada, vocês são raras! A Pri Saran acha que o número de mulheres que voam de parapente no Brasil, é uma incógnita, já que descobriu-se um número maior do que o imaginado. Ela estima um time feminino de aproximadamente 500 mulheres aladas por todo o Brasil. Número que vem crescendo notadamente após a criação e união do Saia Para Voar.
Pri Saran e o seu nascer de asas
Quando pequena tinha um sonho constante, onde corria muito, esticava os braços e lá estava alçando voo para o céu, como num passe de mágica. A sensação e imagem de flutuar sobre um tapete de nuvens abaixo de mim nunca me saiu da memória. Esse sonho não seguiu latente, creio que, devido ao medo de altura que adquiri junto com alguns condicionamentos, no decorrer da vida e dos ventos.
Não decidi nada, acho que o universo decidiu por mim, risos. Como já comentei antes, com o tempo adquiri um medo de altura. Nunca me achei radical e tampouco corajosa para os esportes extremos. Nunca pensei ou cogitei sobre voar livre. Um dia, para a minha sorte, o universo me colocou no lugar certo e na hora certa – era dia das mães de 2007. Durante o almoço em família, no pesqueiro (sede do clube de voo da minha cidade), fui intimada pelo meu “irmão” Maurão, para um voo duplo. Lá fui, sem pensar e analisar muito a situação. Me dei conta, na verdade, quando ele gritou: corre! Naquele momento achei que iria morrer. Hoje afirmo que renasci, depois daquele grande dia. Que alegria!
Esse voo duplo aconteceu há 11 anos atrás. Na sequência decidi que queria voar sozinha. Queria poder sentir aquela sensação quantas vezes quisesse e pudesse. Sempre que encontrava o Maurão, implorava para me ensinar a voar. Naquela época ele só competia e voava (e muito, como sempre). Depois de tanta insistência, 9 meses depois (um parto!) ele me liga para dizer que estava indo fazer a Clínica da ABP (Associação Brasileira de Parapente) para se tornar instrutor e que eu seria sua primeira aluna. Aquele dia sentei e chorei. De emoção, de gratidão. Acho que também já pressentia que uma fase de extrema emoção, superação e transformação estaria por vir.
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Primeira aula, junto com o filhão acompanhando.
Primeiro voo, em Poços de Caldas, Julho de 2008
Comemoração pós primeiro voo, com os instrutores Maurão e Garotinho.
Primeiro voo com o primeiro parapente próprio.
Primeira vez que o filhão foi ver a Mãe voar.
Pri com seu instrutor Maurão, da escola Sul Mineira de Voo Livre.
O que o voo significa em sua vida?
O voo para mim significa transformação, superação, união e muita emoção. O voo me fez deixar de ser lagarta para poder virar borboleta e alçar voo, encarando os meus medos e limites. Revigorar a minha paz interior, num momento mágico e pleno no céu, onde só se escuta o som do silêncio. Se sente a imensidão e gratidão, pela grandeza da natureza e pela nossa destreza de poder flutuar no céu, um grande privilégio e merecimento. Para poucos.
Primeiro voo mais pertinho da cidade onde nasceu, em Santa Rita do Sapucaí – MG
Não exagero em dizer que o voo livre mudou a minha maneira de encarar, viver e sentir tudo na minha vida. E olha que nem voei tanto! No começo, adquiri um tanto mais de paciência, que era uma grande ausência naquele meu momento de carreira e vida. Vivia ansiosa e preocupada, com as tantas tarefas que tinha que balizar todo santo dia e mês. Ser mãe, filha, tia, irmã, dona de casa, empresária, tantas vezes voluntária e ainda tinha que sobrar tempo para ser mulher!? O desafio era grande, o ciclo turbulento e tudo que eu precisava era de leveza, de me deixar flutuar!
Voando em Iquique, Deserto do Atacama, Chile.
O voo me exigiu ser capaz de desligar-me de tudo, para poder voar e pousar com segurança. Conectar-me de forma mágica e plena com o mundo. E que não se explica, se sente. Com o voo aprendi a respirar fundo. A ajustar o foco das minhas superações e a enfocar nas minhas comemorações. A esperar e a aceitar mais o tempo das coisas. Deixar o vento soprar e a natureza florir. É assim que o universo funciona. Depois de um voo, a gente não consegue parar de rir!
Aguardando para realizar o primeiro voo de litoral. Praia Mole, Floripa, em 2012.
Experimente fazer um voo no por do sol e vai entender, porque vai ser capaz de sentir!
A parte social também foi uma transformação. O voo livre, além de asas, me deu uma família gigante, unida e sempre de asas abertas. Isso ficou muito mais claro e se confirmou fato durante as minhas andanças recentes pela América do Sul.
Fora da zona de conforto = quando a gente mais se sente sozinho e/ou inseguro! Encontrei pilotos nas situações mais inusitadas, recebi muitas mensagens de boas-vindas e apoio por onde passei. Muitos eu nem conhecia, ou nem lembrava, mas lá estariam eles, dispostos a qualquer apoio e atenção necessária. É como me sinto quando estou em casa, com toda a minha família brasileira de asas. Seja onde for, sempre tem um par de asas abertas e atenta, pro que der e vier, e para o que for. Sou muito grata por esse presente que o voo livre me trouxe também.
Você é a idealizadora do Saia Para Voar, como surgiu a ideia de reunir as brasileiras?
Quando comecei a voar tive um pouco de dificuldade. É um grande desafio ser mulher e praticar um esporte predominantemente masculino, por mais que o voo livre não tenha nada a ver com força física. Rola um certo preconceito, alguns por vezes querem entender e julgar qual é a real intenção da piloto no voo. Como se entender, julgar e explicar fizesse parte do processo! Por vezes rola até isolamento, tipo clube do bolinha sabe? Rsrs coisa chata, mesmo que por muitas vezes involuntária.
Essa percepção junto com outras dificuldades que eu tinha para a prática do esporte, em 2012, começaram a me desanimar. Despertei a curiosidade a saber mais sobre o universo feminino no voo, se haviam outras pilotos que sentiam as mesmas dificuldades e buscavam também um grupo de amigas, para sair para voar juntas, por pura conexão e diversão, sem competição, afinal os homens são muito mais competitivos na prática do esporte, na minha perspectiva.
Criamos o grupo Brasileiras Aladas nas redes sociais. Rapidamente atingimos os três dígitos, nos descobrimos e nos unimos por todos os cantos do Brasil. Nos conectamos e organizamos o 1º curso de segurança só para mulheres, ministrado em 2012, pela piloto e acrobata Marcia Finelli.
Primeiro curso de segurança só para mulheres, ministrado pela piloto e acrobata Márcia Finelli, em Santa Rita do Sapucaí – MG, em julho de 2012.
Plantamos a primeira semente do nosso encontro, que três anos depois tornaria o sonho em realidade.
Quantos encontros do Saia Para Voar ocorrem durante o ano e como tem sido?
A ideia inicial do encontro era realizar cada edição e confraternização, em uma região distinta no País. Uma por ano, pelo menos.
O 1º Saia Para Voar foi realizado em 2015, no Pico do Gavião, em Andradas-MG, e foi eternizado com um documentário especial, produzido pela Soul Films, para o CanalOFF (especial Dia das Mulheres do Canal Off, em 2016).
Parte da participação feminina e masculina do 1º Saia Para Voar. Outubro de 2015, em Andradas, Mg.
A 2ª edição do Saia Para Voar aconteceu em 2016, em São Pedro-SP. No ano seguinte, o Saia Para Voar ajustou o foco, organizando 3 cursos com renomados e voluntários pilotos, em Santa Rita do Sapucaí, que se dedicaram efetivamente ao desenvolvimento delas no esporte.
Parte das participantes do 2º Saia Para Voar, em São Pedro. Outubro de 2016.
Em abril de 2017 realizamos um curso de iniciação ao XC, para 10 pilotos, com o Robson (Asas da Mantiqueira). Em Julho de 2017 realizamos um XCompe Personal, para 12 pilotos, com o recordista mundial Samuel Nascimento. Em Setembro de 2017 realizamos um MiniSaia, com Guilherme Vacilotto – piloto e especialista em navegação e interpretação de instrumentos eletrônicos. Todos as ações realizadas em 2017 apoiaram efetivamente o desenvolvimento delas no esporte, uma das importantes missões e intenções do Saia Para Voar.
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Curso XCompe, com Samuel Nascimento
Curso XCompe, Samuka
Curso XCompe, Samuka
Curso XCompe, Samuel Nascimento
MiniSaia Caipira. Curso de Treinamento com Guilherme VAcilotto, junho de 2016, em Poços de Caldas.
MiniSaia com o piloto Guilherme Vacilotto. Especialista em navegação através de instrumentos. Setembro de 2017.
Guilherme Vacilotto frisou a conscientização sobre espaços aéreos restritos.
Saia Para Voar oferecido pelo piloto Robson, da Asas da Mantiqueira. Abril de 2017.
Saia Para Voar, com sua lojinha, no XCerrado, em Goiás. 2016. A venda de produtos é revertida para a captação de recursos, em prol das ações e patrocínios do movimento.
Pódio do 1º Saia Para Voar. 2015
Encontro realizado em Santa Rita, maio de 2015. A família crescia e se conhecia cada vez mais.
Saia para Voar patrocinou duas pilotos no Campeonato Brasileiro de 2016, em parceria com a CBVL.
Briefing prova de Cross. 2º Saia
Pódio do 2º Saia Para Voar.
Resgate mais colorido e divertido. 2º Saia Para Voar.
Saia Para Voar patrocinou algumas participações femininas junto à ABP. Foto de 2015.
Ano Novo de 2016. em Carrancas, MG.
Saia Para Voar patrocinou algumas participações femininas no ENPI, em parceira com a CBVL.
Reunião despretensiosa, em Santa Rita.
Documentário Saia Para Voar, da Soul Films (Canal OFF) é premiado como melhor filme de esportes aéreos, no FlyMovies, realizado pela ABP, em 2016.
Prova de pouso no alvo (mosca). 2º Saia Para Voar. O alvo é o símbolo da campanha do câncer de mama.
Para os anos seguintes, nosso plano é alternar entre encontros nacionais e internacionais. As ações nacionais seguem em 2019 focadas no desenvolvimento e cursos para elas, mas também aguardem ações e expedições internacionais.
Possui algum sonho no esporte a ser realizado ou conquistado? Ou alguma realização que considera ter sido importante?
A realização do Saia Para Voar foi, sem dúvida, um grande sonho coletivo, já concretizado no esporte. É algo que todo dia nos emociona, enobrece e fortalece, através de tantas histórias e conexões que o movimento segue concretizando e voando por aí.
Mas claro, a gente quer sempre mais. Nosso sonho agora com o movimento é ganhar asas, e levar o Saia Para Voar pelo mundo: em 2019 iniciaremos as ações internacionais. Queremos que o nosso movimento se conecte pelo mundo e o céu há de ser o limite!
Saia Para Voar em Alto Hospício, Iquique, Chile.
Quanto às realizações pessoais. Primeiro preciso tratar de voar de verdade! Vencer e superar meus desafios, limites e números. Já será uma importante realização. Depois, tenho sim alguns grandes desejos a cumprir: Fazer o tão desejado voo até o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Fazer um Hike and Fly, no Cerro Catedral, em Bariloche, na Argentina. Fazer um Hike and Fly até o cume do Vulcão Villarrica, em Pucón, no Chile. Se conseguir esses feitos, já me sentirei grandemente realizada e felizarda!
Tem algum momento que considera mais especial que os demais?
Cada voo é sempre especial, com sua particularidade, desafio e conquista. Mas sem dúvida nenhuma, nada se compara à emoção do meu primeiro voo solo, momento que eu jamais vou esquecer! Tamanha emoção e sensação, só senti tal qual quando meu filho nasceu: uma explosão e êxtase de felicidade, ansiedade e superação. Nem sei descrever, mas foram os dois momentos mais emocionantes da minha vida.
Já voou em quantas rampas de voo? Dessas rampas tem alguma que você tem um carinho mais especial?
No começo da minha vida no esporte, tive oportunidade de conhecer diversas rampas, através dos eventos que organizava com a equipe GaroTeam. É fato que quem organiza quase nunca voa, devido a tantas tarefas, mas a gente sempre dava um jeito de tirar o pé do chão.
Parte do staff. Nos bastidores do Campeonato Sul Mineiro de 2009.
Nunca parei para fazer contas das rampas voadas, mas creio que devo ter voado em mais de 30 rampas diferentes no Brasil, e fora, em Iquique, Arica e Maitencillo, no Chile. Tenho um carinho especial pela rampa do meu quintal – Santa Rita do Sapucaí-MG, e também pela rampa de Poços de Caldas-MG, que foi onde ganhei asas e realizei meu tão esperado e comemorado primeiro voo solo.
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Momento mais feliz, desafios e limites superados, pousada em segurança no seu quintal.
Em Palo Buque, Chile.
Deserto do Atacama
O que você considera ser a maior dificuldade no voo?
A dificuldade no esporte é sempre pessoal, cada um tem a sua, conforme suas experiências e condicionamentos. A minha maior dificuldade é vencer os meus medos e limites, a cada voo, em especial ao meu medo de altura e ao meu incômodo quanto à sensação de montanha russa, que os pêndulos inevitavelmente geram. É fato que quanto mais alto se está em voo, mais seguro é, porém o meu inconsciente não está nem aí com essa teoria, quando é ele quem tenta dominar a prática da situação. Esse creio ser meu maior desafio: manter a calma, o foco, a atenção e a convicção na reação, especialmente quando a tensão se faz presente.
Sempre finalizamos a entrevista com uma dica do(a) entrevistado(a) para os praticantes do voo livre. Qual é a sua dica?
Para mim, o principal é sempre voar atrás da realização de seus sonhos, seja ele qual for. Acredite que é possível e alcançarás o impossível. Se o seu sonho é voar, minha dica é que você esteja disposto a se dedicar a muito treino e estudo, além da prática constante no esporte. Como em tudo na vida, só a prática leva a perfeição.
É necessário muita atenção e dedicação para a prática segura de um esporte de risco, seja ele qual for. Voe muito, treine mais e divirta-se muuuuito mais.
Tenha muita cautela para com o seu ego! Não deixe nunca ele tentar comandar seus batoques ou decisões no esporte, ele pode (sem dó nem piedade), te colocar da pior forma no seu humilde lugar!
Não se esqueça, você não tem que provar nada para ninguém, além de você mesmo. Só você sabe quais são as suas aspirações e inspirações. E no fim, é isso que importa. O resto, é problema alheio e não te pertence.
Bons voos e para o alto e avante, positivamente, sempre!
Pri Saran.
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Pri Saran, agradeço as inspirações compartilhadas, a boa vontade de fazer e acontecer a entrevista. O carinho e o apreço, que vem dedicando as mulheres aladas, ao longo da sua trajetória no esporte. As nossas conversas virtuais, que antecederam toda a entrevista, durante e pós, praticamente em cima do laço, mas que, “foi que foi, e que vai”, com toda a energia. Muitíssimo obrigada Alada!
Desejamos sucesso e vida longa para o Saia Para Voar. Que a cada dia continue unindo e agregando mais mulheres ao movimento, embelezando nossos ares.
Para saber mais da Pri Saran, acesse o instagram, face e também os links:
Sobre a vida de andarilha pela América do Sul: Voei Por Aí
Para se hospedar em Santa Rita do Sapucaí-MG: UaiFlyHostel
Para saber mais sobre o Saia Para Voar e o encontro, além de acessar as páginas das rede sociais, também acesse o link:
O conceito mais comum sobre medo, é a de que é um sentimento que deve ser combatido. Existem pessoas que, por não conseguirem combater o medo, levam a vida afastadas de tudo aquilo que possa se traduzir em risco. Existem outras que descobriram uma maneira saudável de conviver com ele, transformando-o em uma forma de prazer. São os praticantes dos chamados esportes radicais.
Para estas pessoas, sair de um avião em voo, decolar com uma asa de uma rampa ou escalar uma montanha, significa sentir prazer em superar limites. Enquanto crianças, somos o que poderíamos chamar de inconsequentes, pois ainda não determinamos estes limites.
Desde que começamos a entender a vida, instintivamente tendemos a limitar as nossas atitudes e, consequentemente, passamos a temer tudo aquilo que ultrapasse esses limites. Crescemos acreditando que as barreiras impostas não devem ser quebradas, com risco de nossa integridade, e desenvolvemos a partir daí os nossos medos.
É comum encontrarmos pessoas que olham os paraquedistas como loucos, outras os classificam como ousados ou corajosos, mas dificilmente como pessoas comuns que encontraram uma maneira prazeirosa de conviver com seus medos.
No nosso dia-a-dia, deparamo-nos com situações onde precisamos tomar decisões das quais podem depender nosso emprego um relacionamento, ou mesmo nossas vidas.
Nestes momentos, aquele que conseguiu ultrapassar sua barreira e convive bem com seus medos, terá maior facilidade de encará-lo. Quando saltamos de um avião em voo, decolamos de uma rampa ou escalamos uma montanha, não estamos desafiando o perigo, estamos sim empurrando mais para a frente a nossa barreira, tornando desta forma a nossa vida mais simples e mais prazerosa, tendo como principal emoção nossos próprios medos.
Outro dia estava assistindo a um programa sobre esportes radicais: um bando de gente pulando das alturas, desafiando penhascos, enfrentando corredeiras sinistras – sem tempo pra sentir medo.
“Esse pessoal não tem amor à vida”, balbuciei entre os dentes. Aí rebobinei meu pensamento e mudei de avaliação. “Esse pessoal ama a própria vida mais do que tudo – eu é que estou desperdiçando a minha na frente da tevê.”
Vida. A única coisa que a gente realmente tem – viemos do nada e para o nada voltaremos. Sempre que me dou conta disso, fico boba com a quantidade de tempo que desperdiçamos fazendo coisas que não gostamos, dizendo amém para o que não concordamos e aceitando as regras pré-estabelecidas em nome da ordem social. No fundo, malucos somos nós, os que não arriscam, os que vivem entre quatro paredes, os que mantém pouco contato com a natureza, os que se protegem contra emoções vertiginosas.
Quem escala uma montanha está mais seguro do que eu, dentro do meu carro estacionado na rua, sozinha, aguardando a chegada de uma amiga. Mais seguro do que eu quando saio do supermercado com as compras, ou quando caminho pelas avenidas da cidade: a violência não está nos ares; não está no esporte, está no cotidiano. Nitroglicerina pura é ter um revólver apontado pra cabeça ou ser ameaçada de agressão. Perigoso é aqui.
Penso noite e dia em como posso dar mais valor à minha vida. Com todos os objetivos alcançados, o que não é pouca coisa, o que faço a partir de agora para manter minha paz de espírito em segurança? Penso em recomeçar do zero, em trocar de cidade, de país, penso em desacelerar, esquecer de tudo o que acreditei até aqui, mudar de religião, inventar outra vida, uma vida mais plausível, menos caótica, menos necessitada de supérfluos, menos refém do tempo. Nunca fui de muitos medos, e de repente me desconsola ler o jornal, encarar as más notícias, enfrentar um mundo em que a gente não pensa “isso nunca vai acontecer comigo”, porque sabe que vai acontecer, somos os próximos da fila.
Eu vejo pessoas saltando de bung-jump, atravessando a nado canais enormes só pelo prazer de quebrar um recorde, todos dublês deles mesmos, e penso que isso, sim, jamais vai acontecer comigo, e não vai mesmo, porque não tenho disposição e nem preparo físico. Mas hoje ao menos os compreendo e sinto uma certa inveja desse medo escolhido, desse medo provocado: ama a própria a vida quem aprende a vencê-lo.
Martha Medeiros
Extraído do livro COISAS DA VIDA, que reúne algumas das crônicas de Martha Medeiros. Analisa e descreve as manias, as delícias, sofreguidões e anseios de homens e mulheres urbanos e modernos, fazendo um verdadeiro retrato de nossa época. Com a franqueza e com o texto dinâmico que lhe são característicos, relata e explica grande parte das taras, neuras e outros produtos mais e menos louváveis de nossa sociedade consumista e, por vezes, conformista – tudo sempre visto de dentro, pois ela nunca se exclui de suas considerações.
Há espaço para todas as normalidades e todas as “esquisitices” que nos caracterizam: o sentimento de frustração, o tique-taque do relógio biológico feminino, a necessidade de dinheiro versus a necessidade de sossego, o progressivo apagamento das fronteiras entre um e outro sexo, máquinas de provocar orgasmos, choros, filmes, livros e músicas, a delícia e a tragédia de não amar ninguém e tantas outras coisas da vida, como os esportes radicais. 🙂
Claro que temos medo! Pelo menos os mais sábios tem! Amamos essa aventura que é viver e queremos voar por muitos e muitos anos!
É um grande mito acreditar que nos lançamos abismo abaixo sem vacilo, como super-hérois com seus super poderes, ou mais humilhante ainda como loucos. Ok, ok, ok… Senhores e senhoras que a verdade seja dita, alguns realmente “pulam” sem refletir, mas isso cabe mais para uma loucura irresponsável que uma prática esportiva e não é nada bem vista no meio não! Tsc,tsc, tsc…
Estudamos as expressões dos humores da atmosfera que nos são reveladas pelos ventos, nuvens e geografia.
Descobrimos que até o vento tem seu lado B, pelo cruel falso vento de frente.
Os meteorologistas passam a ser compreendidos por essa gangue dos ares.
A música aerodinâmica num tanque de guerra causa um impacto maior. Entendemos as nuances (que são muitas) envolvidas na palavra e fazemos de tudo para que exista com a perfeição necessária aos nossos voos.
Comportamento, auto conhecimento, superar e respeitar limites entram no pacote revelando-nos e revigorando a cada voo.
Pensava que era só se jogar morro abaixo?
O coração bate forte sim! A cada decolagem, bate tresloucadamente, as mãos ficam suadas, os nervos a flor da pele e o medo tá ali, e vai alertar e nos manter seguros, desde que se bem utilizado como ALIADO e não como um inimigo.
A DÚVIDA É O PRINCÍPIO DA SABEDORIA!
No livro a Guerra dos Tronos encontrei um diálogo que cabe perfeitamente no assunto. Um pai (Eddard Stark – buaaaaa) afirma ao seu filho (aquele que agora tudo vê) que não existe coragem quando não existe o medo, com a clara intenção de orientar que o medo não torna a pessoa mais frágil e que coragem jamais irá significar ausência do medo, mas sim a capacidade de verificar, servir-se dele ou dispensá-lo, mas a historinha não termina aí e prossegue com a reflexão que pode-se temer tudo de quem não tem nada a temer, ou como diria o mestre Sivuca: não ouvir o medo tem grandes chances de ser patológico!
Tal diálogo serve para todos os praticantes de esportes de ação, como o voo livre. Devemos compreender que o medo demais é perigoso tanto quanto o medo de menos. E esse medo é pessoal, pois os perigos revelados para você são diferentes dos perigos revelados para mim, porque tão simplesmente e belamente os nossos limites, habilidades, vivências, gostos e personalidades são distintas.
O grande triunfo ou a grande sacada, dependendo do seu objetivo, é a sabedoria de ouvir com atenção equilibrada o que nossos medos estão alertando, um para não se render a covardia, pois essa é submissa demais aos medos, e se liga que a vida tá rolando e você não quer estar enrolando a magnitude de viver as grandes aventuras, e menos ainda quer que o seu medo paralise “o tico e o teco” justamente quando deveriam estar a todo funcionamento, mas também não se tornar umtemerário despreocupado com os perigos, que levanta a bandeira do “Ei medo, eu não te escuto mais, você não me leva a nada”, quando tal frase não se aplicaria a situação de um momento que exige ponderação na decisão, ou seja, não ser o infeliz pateta do noticiário que pulou de ponta cabeça, sem antes ter analisado a profundidade do lago.
A coragem e ousadia somente serão virtuosas e inspirar admiração e respeito se houver prudência, é ela que irá aconselhar o que é necessário enfrentar e o que é preciso evitar, é ela que te ensina a ter paciência, controlar a ANSIEDADE, ser intelectual, lúcido, o que preserva a vida, enfrenta os medos evitando os reais perigos e consequências tanto quanto possamos prevê-las. Não quer dizer que em todas as escolhas ela impeça o risco e evite o perigo, que são inerentes ao estar vivo, mas sim, é ela que irá questionar; Por quais meios? Com quais precauções? Estou preparado?
A prudência decide e a coragem prove!
Descubra rapidamente que as qualidades da coragem com prudência inspiram respeito, e que a coragem sem prudência é uma cega loucura insana, que inspira o desprezo e nada tem a ver com a virtude.
Sacou os abismos entre coragem, ousadia, temeridade, covardia, imprudência e negligência?
Ah, antes que eu esqueça! Não deixe que seus medos sejam maiores que a sua vontade de voar! Independente do significado da palavra voar em seu caminho.
É mega clichê essa frase, mas é absolutamente essencial e humano para aqueles que querem realizar os sonhos, porque tão puramente, acredite! Viver é melhor que sonhar!
Tão logo que você escutar seus medos, superar cada um deles, com sabedoria, inevitavelmente e com justo mérito, irá se parabenizar mentalmente e pensar; A liberdade é mesmo azul! E nós iremos te responder:
Ôxí, se é! O infinito é realmente um dos Deuses mais lindos!*
“Enfrente seus medos de maneira sábia, até porque ele se mostrará a cada nova decisão, a cada nova mudança e situação. Crescer não é abandonar os medos e levantar as bandeiras do “Vai com medo mesmo”, mas sim nos tornar mais íntimos deles, para que possamos superá-los e possamos ser heróis da nossa própria história.”
Quer saber mais sobre como lidar com os medos?
Bons, longos e seguros voos!
Nicolle Muraro
*letra de Renato Russo. Não desmerece ou enaltece nenhuma religião, é apenas uma metáfora.
Relato da viagem sobre a perspectiva de um piloto módulo 2.
Nossa viagem ao Chile foi muito mais do que uma viagem de voos incríveis. A parceria, a vibe e a alegria do grupo em todos os momentos foi algo extraordinário, difícil para mim descrever em palavras, mesmo que eu fosse um exímio escritor, ainda assim, seria como ver uma belíssima paisagem através de uma foto ou vivenciar um voo através de um vídeo. Nada se compara ao momento presente e por isso não vou tentar descrever aqui os quão extraordinários foram os momentos em terra firme turistando e confraternizando. Vou aterme a descrever a experiência como um piloto iniciante.
Pois bem, antes de ir ao Chile tinha na bagagem 13 Voos, incluídos ai cinco pregos, do Morro do Cal, um voo em Jaraguá, três em Pomerode e quatro na Ilha do Mel, portanto, apesar de bastante treino de solo ainda me considero bastante amador devido à falta de experiência e essa pode ser a mesma realidade de alguns pilotos que gostariam de ir para o Chile, mas se julgam inaptos, porém Iquique permite bons voos até mesmo para os amadores. (inclusive para quem esta nas primeiras aulas)
A verdade é que hoje tenho mais voos, horas de voo e experiência de voo internacional do que no Brasil, porque no Chile se voa muito…
Iquique é um lugar extraordinário para o voo livre, tanto para pilotos experientes, quanto para pilotos iniciantes como eu. Para os iniciantes é perfeito pelos seguintes motivos:
1 – 99% dos dias tem condições de voos lisos e seguros pela manhã ou no fim da tarde.
Se você acordar um pouco mais cedo e chegar a Alto Hospício por volta das 9:30 da manhã é possível decolar e fazer um ”preguinho honesto”, como dizíamos. É um voozinho de 7 a 12 minutos que é possível chegar a praia de Huayquique sem dar absolutamente nenhum comando, de tão liso que é o voo.
Nos preguinhos matinais é possível chegar na praia com algo em torno de 350m de altitude, possibilitando a prática de orelhas, giros em espiral, etc. A aproximação e a área de pouso dessa praia é gigantesca, então tudo nesse voo matinal é muito tranquilo e o visual é espetacular.
Durante a tarde, dependendo do vento é possível fazer o mesmo preguinho honesto com o bônus de ter o espetacular pôr do sol no oceano pacífico com o plus da paisagem, ou da para fazer um Lift em Palo Buque. Falarei mais sobre Palo Buque em um tópico exclusivo, pois esse lugar merece.
2 – Voos um pouco mais turbulentos, mas ainda assim muito seguros.
Depois do preguinho honesto subíamos novamente a Alto Hospício e procurávamos decolar por volta das 11:00 a 12:00. Esse segundo voo do dia era às vezes o mais emocionante. Nesse horário o vento já está mais forte e já há condições termais, então é possível subir bastante, girar muita térmica, voar por mais tempo e se tudo der certo pousar na praia Brava ou na Cavancha, sobrevoando toda a cidade de Iquique.
Esses foram os voos onde mais aprendi. Pode ser bastante turbulento, mas se você tem um bom conteúdo teórico e bastante prática de solo é possível fazer voos longos e altos. Claro que existem muitos riscos e por isso digo que é importante a teoria e a prática, dá pra morrer fácil lá se você for desatento ou inconsequente, porém, se voar dentro dos seus limites, é um voo, mesmo que turbulento muito seguro, existe ns (enes) possibilidades de pouso e de ganhar altura. De qualquer forma, se você é daquele tipo corajoso demais, fique atento. No período em que estivemos lá ocorreram dois incidentes graves com um grupo argentino, mas graças a Deus, sem maiores consequências. Para os mais precavidos posso garantir que é um enorme aprendizado, com uma boa condição de segurança (depende de cada um).
3- PALO BUQUE.
Esse Lugar é diferenciado. Começa que lá decola-se do chão… Já viu isso?
Na pior das hipóteses, com pouco vento você faz um liftzinho animal, numa paisagem diferenciada, curtindo um pôr do sol. Já com muito vento, uma prática de solo que enche bastante o seu copinho de experiência. As piores hipóteses são raras. O deserto do Atacama gosta mesmo é de ver a galera estampada no céu.
Decolando a partir de uma duna menor, você faz algumas pernas nela para ganhar altura e no momento certo se lançar para a duna maior. E maior mesmo, porque essa segunda duna é gigantesca. É uma sensação muito louca, você joga para a duna grande e vai liftando em direção ao sul. A impressão é estar perdendo altura em razão da duna ir se aproximando de você, mas o vário segue no pi pi pi pi pi …. Não parece, mas você esta subindo e muito perto do chão, por bastante tempo, já que é longa. Quando esta prestes a pousar, está lambendo o chão, faz uma direita e toca para norte de novo e segue ganhando altura. É muito legal! Sempre lambendo a duna ou bem próximo a ela, então não transmite a sensação de estar alto, MAS…. quando você decide que está alto o suficiente e resolve jogar para oeste, para longe da duna, aí sim, se toca que decolou do chão e está aos 650m / 800m ou mais alto. Perto da duna ou bem longe acima do deserto, dá pra girar térmicas. Palo Buque permite bastante aprendizado nesse sentido, também dá para praticar orelhas, espirais, entubar nas nuvens e tudo mais que o mestre Marcio permitir. Voo animal, só fazendo para saber.
Com relação a segurança é muito tranquilo. Nas condições que voamos tinha pouca turbulência, excelente planeio e a área de pouso é infinita e não sendo no topo da duna até tem como um 4×4 ir te buscar.
Enfim… Iquique foi uma experiência sensacional em termos de voos e vale a pena para TODOS os pilotos conhecer esse lugar. A paisagem é extraordinária, a cidade é muito legal e os voos muito intensos e divertidos.
Considerações: Devido a intensidade de todos os momentos vividos durante a Expedição Vento Norte foi necessário dividir as publicações e fotos, sendo uma para cada aventureiro participante com abordagem especifica nos voos e uma sobre o que vimos durante nossa estadia em Iquique.
No deserto em que fomos treinar nota-se que o amadorismo cobra seu preço. Nos desafia a melhorar, ensina a aplicar a técnica com perfeição. O vento é forte, amigo e cruel ao mesmo tempo. Nos eleva metros do chão com força e rapidamente, da mesma maneira que pode nos lançar ao solo em um minuto de desconcentração!
Nos permitiu escalar uma montanha como se fosse uma rua a ser atravessada. Permitiu que explorássemos o controle das nossas asas realizando manobras.
Seu relevo e sua condição em uma brincadeira leve de sentir-se criança novamente. Alegres e de espírito leve, não importando o tamanho da caminhada para decolar, ou que tivéssemos que amarrar infinitas vezes as mochilas dos parapentes no bagageiro de teto de uma van.
Sentir-se criança como sempre merecemos ser. Ver a beleza do desconhecido, girar térmicas suaves e outras nem tanto, explorar o valor da técnica, subir junto com os “rotes” e tentar, para única e exclusiva superação pessoal atingir o pouso nas 3 belas praias que se mostravam!
O deserto, seu vento e sua magia mostram que o caminho do voo não se faz de forma solitária, nos mostra em um por do sol gigantesco o quão pequeno somos, e ao nos lançarmos numa duna, o quanto frágil e belo é esse esporte.
Exige concentração para que aquilo que nos foi passado esteja de fácil acesso na mente na hora em que precisarmos.
O deserto me mostrou, pessoalmente, que na verdade, eu nunca deveria ter estado em outro lugar em minha vida que não voando, me mostrou que sou corajoso e ao mesmo tempo, me trouxe a delícia de ser criança outra vez!
Me deu mais que amigos no ar, me deu um estilo de vida dentro do voo!
E que venham os próximos 10 mil metros de ascensão, e o pouso no Marumbi! ????
Considerações: Devido a intensidade de todos os momentos vividos durante a Expedição Vento Norte foi necessário dividir as publicações e fotos, sendo uma para cada aventureiro participante com abordagem especifica nos voos e uma sobre o que vimos durante nossa estadia em Iquique.
Passar 10 dias com a galera Vento Norte em Iquique foi sensacional!
Apenas o fato de conhecer uma cidade no meio do Atacama, com clima e cultura completamente diferentes, já seria uma experiência incrível, mas rolou muito mais que isso…
Esses dez dias foram de pura imersão no vôo livre e oportunidade para evoluir muito no esporte, pois Alto Hospício e Palo Buque oferecem condições diversas, seja no preguinho (“piano” para os locais) de final de tarde ou no horário termal, com térmicas fortes.
O contraste entre o deserto, o mar, a montanha e a cidade, proporcionam um visual irado e o privilégio de curtir esse espetáculo do alto é indescritível. Tem que ir e ver com os próprios olhos!
Considerações: Devido a intensidade de todos os momentos vividos durante a Expedição Vento Norte foi necessário dividir as publicações e fotos, sendo uma para cada aventureiro participante com abordagem especifica nos voos e uma sobre o que vimos durante nossa estadia em Iquique.