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SIV – Manobras Necessárias

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Ultimamente muito se discute acerca da necessidade (ou desnecessidade) de se praticar manobras com o parapente e frequentemente, nos deparamos com situações onde um alto grau de domínio de vela é crucial para se evitar um acidente. Daí surge a inevitável pergunta: é realmente necessário que um piloto de parapente (sem aspirações no mundo acro) saiba realizar manobras

E, em caso afirmativo, quais?

Bem, a essas e a outras perguntas conexas tentarei responder, mas sem contudo, pretender o monopólio da razão, eis que subjetivas as colocações em se tratando de “padrão de pilotagem”. Ainda mais se levarmos em consideração os diferentes perfis dos praticantes da modalidade e suas respectivas ambições dentro do voo. Sendo assim, que o texto abaixo sirva de substrato para uma profunda reflexão por parte daqueles que almejam praticar o voo com parapente em condições fortes e turbulentas.

Em primeiro lugar, cumpre definir o que vem a ser manobra com o parapente. Se fôssemos definir manobra com parapente, sem muito rigor, poderíamos dizer que uma simples curva é uma manobra de alteração da direção do voo. Nesse caso, manobra seria toda e qualquer alteração de trajetória sofrida pelo parapente que se encontra em voo retilíneo normal, desde que tal alteração tenha sido provocada intencionalmente pelo piloto. Todavia, não é este o sentido que aqui se quer dar a esta palavra, pois o que se busca discutir é a linha divisora de manobras necessária a um bom domínio do parapente e as manobras acro propriamente ditas.
Neste sentido, é razoável entendermos como manobra toda alteração de trajetória do parapente provocada intencionalmente por meio de comando de freio e ou de corpo, cujo resultado difere da mera alteração da direção de voo (curva com ou sem inclinação) ou pequenos pêndulos frontais (como por exemplo aqueles característicos de pousos sem vento). Na verdade, um estudo científico das manobras com parapente deve necessariamente passar pela análise de cada possibilidade de comando (freios acionados de maneira alternada ou simultaneamente e ou deslocamento do CG com o corpo no início, durante ou somente no final da manobra) e suas respectivas consequências, além, é claro, de serem levados em consideração fatores como: condições em que os testes estão sendo realizados, o tipo de equipamento que se está voando dentre vários outros que influenciam diretamente nas ditas manobras.

Pois bem, as manobras com parapente podem ser divididas em três grandes grupos:
Manobras Dinâmicas – Manobras de Estol – Manobras derivadas de SAT.

Manobras Dinâmicas são aquelas que envolvem movimentos que submetem os pilotos a grandes G`s (como por exemplo as espirais simétricas) e também a movimentos pendulares dinâmicos (também envolvendo maiores ou menores G`s), como soe acontecer nos wingovers, espirais assimétricas, loopings (ou contra-giros) e golfinhos (exercício que se trabalho o domínio do cabeceio ou avanço da vela).

Manobras de Estol são aquelas em que o piloto retira a vela de sua configuração normal de voo, estolando-a completa ou parcialmente (estol de um dos lados da vela). Que encontramos as famosas negativas, o full stall, o tail slide (ou fly back), o twsiter, o helicóptero, o mc twist e o misty flip. Não nos preocuparemos aqui em detalhar cada uma das manobras de natureza estritamente acro.

Manobras SAT são todas aquelas derivadas da manobra que dá nome ao grupo, consistindo sempre na combinação de uma manobra dinâmica com a própria manobra SAT. Por exemplo: se combinarmos uma espiral assimétrica com um SAT teremos um SAT assimétrico, ou se combinarmos um looping com um SAT, teremos um tumbling. Existem hoje algumas variações das manobras deste grupo, resultado de combinações específicas de manobras que hoje se encontram inseridas de maneira complexa no mundo das competições de acro, e que por isso mesmo fogem ao escopo deste trabalho.
Assim tendo em vista a existência desses três grupos de manobras podemos retornar à indagação central deste texto: são as “manobras” com parapentes realmente necessárias ao piloto de fim de semana e ao piloto (competidor ou não) de cross country?

Bem, o terceiro grupo de manobras (manobras de SAT) está obviamente fora dos limites objetivos da resposta a esta questão, assim como a maior parte das manobras do segundo grupo (manobras de estol) e algumas do primeiro (manobras dinâmicas), eis que notória a natureza acro destas manobras. Por outro lado, que dizer de manobras como espirais simétrica, wingovers, golfinhos, full stalls, tail slides e “negativas”? Podemos afirmar com absoluta certeza que estas manobras são necessárias, ou, ao contrário, desnecessárias?

Uma questão há muito negligenciada por um grande número de pilotos tupiniquins é aquela relativa à real capacidade de cada um lidar com situações complicadas de voo/colapso e, de alguma forma, se saíram bem (ainda que jogando o reserva) ou, pelo menos, permanecendo vivos. De toda forma, isso não muda o fato de que muitos destes não tem a habilidade e técnica necessárias a uma pilotagem segura de velas de alta performance em condições turbulentas.

Da mesma forma que um piloto de jatos comerciais deve fazer periodicamente simulações de incidentes e estar sempre atualizado com tudo que se relaciona a segurança em voo, o piloto de parapente também deveria fazer o mesmo em seu campo de atuação, mesmo que nunca venha a precisar de tais técnicas, É justamente neste ponto que algumas manobras se fazem necessárias, pois servem ao desenvolvimento tanto de feeling como da técnica de pilotagem em si. Por exemplo se um piloto leva uma grande fechada assimétrica enquanto pilota seu paraca de competição totalmente acelerado, ao tentar conter o giro acaba estolando sua vela , dificilmente saberá o que fazer se nunca tiver treinado diferentes formas de controle de estol. Levantar as mãos na hora errada seria de grande probabilidade neste caso e as consequências certamente trágicas. Agora suponhamos que este mesmo piloto tenha uma boa altura para tentar resolver a situação, e que jogar o reserva na área em que se encontra não seja a melhor das opções no momento. Só que ao simplesmente fazer um full stall o piloto percebe que embora a vela esteja sobre a sua cabeça (completamente estolada) ele se encontra com meia volta de twist, ou seja, com o bordo de ataque de sua vela apontado para o lado oposto de sua visão e que uma das pontas da vela está com uma pequenas, porém insistente gravata. E aí o que fazer? Rezar? Para quem? Jogar o reserva? Mas para jogar o reserva ele terá que soltar os batoques e se ele solta os batoques, e a vela avança violentamente para frente e de maneira assimétrica ingressando numa espécie de efeito cascata como jogar o reserva? Ou melhor, em que momento e onde jogá-lo?

É sempre válido lembra que um reserva lançado no momento errado e/ou na direção errada (em função do movimento conjunto, que às vezes é caótico) pode resultar num embaralhamento do seu última chance nas linhas do paraca… e aí só cabe recurso do cara lá de cima. Um piloto experiente e que sabe como controlar a vela estoladas (inclusive abrir gravatas com a técnica de controle de estol), facilmente sairia de uma situação como a acima descrita. Nem ao menos pensaria em jogar prematuramente o reserva, isto é, após constatar que tinha altura suficiente para trabalhar a configuração resultante do colapsos. Além disso, sua noção espacial de posicionamento relativo, adquirida como o treinamento de algumas manobras, o ajudaria num eventual lançamento do reserva e minimizaria a possibilidade de um embaralhamento como o acima referido.

Não se alegue que basta deixar a vela “girar” e ganhar energia após a assimétrica que tudo isto seria evitado, pois muitas vezes a vela abate tão violentamente na diagonal, que acaba entrando numa configuração semelhante àquela do SAT (à causa do arrasto gerado pelo lado fechado) para, logo após, avançar assimetricamente (após a reabertura, se esta ocorrer), enquanto o piloto segue uma trajetória que em alguma medida se contraporá àquela que seria natural para a reentrada em voo da vela. Nestes casos, se o piloto não está acostumado a inverter o corpo e a “mergulhar” com a vela assimetricamente, como num correto wingover, o twist estará garantido.

É claro que saber interpretar o que vela está “pedindo”em cada momento do “catrapo” é algo que somente com muito treino se pode adquirir, ainda mais quando se está com ela ao seu lado ou abaixo do seu corpo. Isso não significa dizer que todo piloto deva fazer um pouco de acrobacia com parapentes, mas sim que um treinamento específico de controle de vela em situações de pêndulo (frontal e lateral), estol (simétrico e assimétrico) e manobras de descida (como espiral positiva) é absolutamente necessário se o piloto quer realmente dominar o aparelho em que voa.

Quanto mais fortes forem as condições em que você voa e mais “arisco” for o seu parapente, maior será o grau de domínio de vela que você precisará ter para voar em segurança. E essa relação permanece inalterada nos dias de hoje, por mais seguros que os equipamentos possam estar se tornando.

Ao meu ver, e não os chamarei sequer de “manobras” (stricto sensu), wingovers (feitos da maneira correta e sem intuito acrobático, mas não esses “balangovers” ou “winganovers” que vemos os mais “atiradinhos” performar), controle de estol e pitch (ou golfinhos) são exercícios necessários ao pleno domínio da vela, enquanto que espiral simétrica é manobra necessária de descida.

Corroborando o que aqui se defende estão alguns dos maiores nomes do parapente mundial da atualidade (e aqui só estamos falando de pilotos de cross country). Basta compararmos os resultados do último PWC e dos últimos mundiais de cross com os nomes que encabeçam as competições acro que veremos nomes comuns às diferentes listas. Salvo raríssimas exceções, os pilotos de ponta do atual circuito de crosso ou fazem acro, ou são instrutores de SIV, ou são pilotos de teste de alguma fábrica, ou ainda , possuem uma vela só para treinar manobras. O por quê? Bem, isso parece meio óbvio agora… Pelo menos esses caras devem saber alguma coisa.

Texto redigido por Marcelo “22” Borzino para a revista Air (12) – páginas 49 e 50
E… happy tumblings!

Compromisso com a segurança

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Esse artigo foi atualizado para o novo site da escola de Voo Livre Vento Norte Paraglider.

Para acessar, basta clicar:

https://voeventonorte.com.br/blog/compromisso-com-a-seguranca

Visitando Outras Rampas

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SEJA GENTIL COM ESTRANHOS, ELES PODEM SER ANJOS DISFARÇADOS!

Esta com a trip de voo marcada para outra rampa de voo?

Então além de manter as condutas gerais e verificar apenas se é permitido o acesso de animais de estimação existe algumas atitudes que devem ser adotadas:

  • Por segurança e cautela: nunca pratique o esporte sozinho, nem treino, nem voo. Sempre realize a atividade em grupo de pelo menos 3 amigos.
  • Entre em contato com os responsáveis pela rampa afim de obter o maior número de informações sobre o local e suas peculiaridades.
  • Apresente sua carteira ABP ou ABVL, assim como a carteira do Clube que pertence, em muitos clubes é concedido desconto na diária se você já contribui com algum Clube.
    Pague a diária.
  • Na maioria dos Clubes não existe um cobrador e você deve ter o bom senso de se informar para quem deve entregar o dinheiro do seu dia de voo. Normalmente as taxas são de R$10,00 até R$ 30,00. Lembre-se que esse dinheiro é destinado para manter a existência dos clubes de voo, então contribua e ajude para que perdure por anos e anos. O voo livre nacional ganha com isso a existência de diversas rampas em diversos locais.
  • Respeite as normativas e o espaço aéreo, se informe sobre as restrições.
  • Se chegou na rampa e não encontrou os pilotos locais, desconfie da condição! Não arrisque acreditar que sua avaliação é mais acertada que os dos pilotos locais, existe uma significativa chance de você ter se equivocado e possivelmente a condição não esta mesmo favorável. (a maioria dos clubes possuem um número relativamente alto de sócios, encontrar uma rampa vazia quer dizer que não é dia de voo seguro por lá).
  • Seja gentil, evitando rivalidades e curtindo a viagem, realizando bons, longos e seguros voos, colecionando novos amigos.

Taxas das Rampas

Atualizado em 16/03/2017, podendo sofrer alterações sem aviso prévio.

Morro do Cal – Campo Largo

Diária piloto visitante contribuinte do esporte R$ 15,00
Diária piloto visitante não contribuinte do esporte R$ 25,00
Isentos de diárias associados do CVLVN-PR.
Camping por pessoa (piloto associado) R$ 15,00
Camping por pessoa (piloto contribuinte) R$ 25,00
Camping por pessoa (piloto não contribuinte) R$ 40,00

Clube Cordilheira do Santana – Rio Branco do Sul

Diária piloto visitante contribuinte do esporte R$ 15,00
Diária piloto visitante não contribuinte do esporte R$ 25,00
Isentos de diárias associados do Clube Cordilheira.
Camping por pessoa (piloto associado) R$ 15,00
Camping por pessoa (piloto contribuinte) R$ 30,00
Camping por pessoa (piloto não contribuinte) R$ 50,00

Entrevista Danuza Bueno

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Danuza é uma das mulheres corajosas que voam livre e são apaixonadas por esportes na natureza, daquelas que nasceram com asas e rodinhas nos pés. Além de voar de parapente, praticar paraquedismo, esqui, mergulho e viajar de moto, é mãe. Tem um casal de filhos – Arthur de 3 anos e Lis de dois meses – com o marido e piloto de parapente Daverson.

Trabalha como coordenadora de Trade Markting, em uma empresa líder do varejo calçadista, e nos finais de semana quando não está praticando esportes, registra belíssimas imagens de gestantes, bebês e produtos para catálogos. A fotografia começou como um hobby e acabou que o interesse levou à graduação em fotografia, sendo atualmente além de uma grande paixão, um plano B.

Perfil do Facebook da Danuza é: https://www.facebook.com/dan.dav.7

Agradecemos a Danuza por poder compartilhar um pouquinho de sua história em nosso site! Confira a entrevista abaixo!

Vento Norte: Alguma vez, até mesmo quando criança, já imaginou que voaria? Voa desde que ano?

Danuza: Desde 1998, são 18 anos de voo. Marquei até o voo número 400 e hoje não tenho ideia de quantos voos e quantas horas voadas durante esses anos todos. (estou velhinha. rs).

Acho que o voo faz parte do imaginário de todos. Todos sonham em voar, mas poucos tem coragem ou estão dispostos a sair da zona de conforto, afinal na terra e nas raízes moram as certezas que temos.

Quando pequena sonhava em voar, pensava em ser aeromoça e que deveria ser o máximo saltar de paraquedas. Amava os filmes de ação onde via mulheres fazendo esportes onde a dominância masculina imperava.

De certa maneira, comecei a voar ainda criança, pois na época tinha 15 anos de idade, minha mãe me acompanhou durante todas as minhas aulas práticas até ganhar confiança que eu voaria e não faria nenhuma besteira que pudesse me machucar, tive em minha Mãe uma grande incentivadora.

Vento Norte: Em que momento da sua vida decidiu praticar o voo livre?

Danuza: Eu fazia escalada com um grupo de amigos, isso em meados de 97. Dois desses amigos começaram a voar, eu achei aquilo o máximo, mesmo não tendo idade e condições financeiras para voar.
Na época eu trabalhava como menor aprendiz no grupo Ferramentas Gerais, minha mãe era costureira em uma indústria, a falta de recursos financeiros poderia arruinar meu sonho de voar, mas … “Nada é pesado demais para quem tem asas”….

Corri atrás de um patrocínio para a vela* e para a sellete*, montei um projeto com desenhos a mão, pois malemal existia internet naquela época, desenhei um paraca*, uma sellete*, desenhei o logo do patrocinador, datilografei a proposta e enviei via FAX para uma indústria renomada de botas para vôo, a Snake. Para minha surpresa a Snake me chamou para conversar e fizemos uma baita negociação com a Sol Paragliders, pagamos 80% do valor do equipo* com permute em botas de vôo e o restante paguei em suavíssimas parcelas que meu salário de menor aprendiz comportava, na época o dólar era 1 pra 1. Sou eternamente grata a Snake e a Sol (Ary Pradi) por essa oportunidade, sem esse ponta pé inicial eu não estaria voando até hoje.

Sellete: cadeira que o piloto se conecta ao parapente. Paraca: parapente, paraglider, asa, velame. Equipo: equipamento de voo.

Vento Norte: Qual é a emoção envolvida em ser piloto de parapente? Como você descreveria ser piloto ou o que o voo significa em sua vida?

Danuza: O que posso dizer desse maravilhoso esporte? Meu amor, meus filhos, meus melhores amigos, literalmente “caem” do céu. O voo rege muitas coisas na minha vida, foi onde encontrei segurança e força de vontade para correr atrás de meus sonhos, foi através dele que conheci lugares maravilhosos, pessoas maravilhosas, o amor da minha vida e através dele vieram meus filhos. Filhos do vento, do amor e da liberdade. Vôo = Vida!

Daverson, Dan e Tutu.

Vento Norte: Pode considerar que o voo livre mudou sua maneira de encarar algumas situações, sejam elas profissionais, espirituais, sociais e outros?

Danuza: O voo te ensina muitas coisas, dentro delas o quão pequeno você é dentro de uma imensidão que é o mundo lá embaixo, ele te cobra a sensação de vivo combate, de estar presente, sangue correndo nas veias, de ir para onde você olha, ter um racicíonio rápido para sair de determinadas situações.

Profissionalmente, acredito que praticantes de esportes ditos de risco, tem uma tendência natural a serem mais ousados e sangue frios, a serem líderes, a assumir mais riscos, pois o medo, fator determinante que congela qualquer um, passa a ser um amigo e não mais um inimigo, pois ele tem a função de te manter alerta e vivo o tempo todo.

Espiritualmente, acredito que o céu é o terreno neutro, onde deixo minhas orações e meus agradecimentos, também um terreno de perdão que lembro com carinho dos meus amores e até dos meus desafetos, quando você está lá em cima nada pode te tocar e tirar a sua paz, acho que por isso o vôo é algo tão viciante, é um espaço onde você pode ser você mesmo sem ter que dar satisfações.

Na minha vida pessoal, o voo é tudo, minha família, minha casa, meu marido, meus filhos, tudo é fruto do vôo, optamos por morar em Atibaia pelo vôo, moramos anexo a rampa, onde da janela da cozinha entre uma louça e outra podemos decidir se a condição está boa ou não para voar.

Vento Norte: Possui algum sonho no esporte a ser realizado ou conquistado? Ou alguma realização que considera ter sido importante?

Danuza: Vários, voar na neve foi um deles. Sonhei durante anos em voar na neve, até que consegui decolar do Cerro Otto em Bariloche. Nada é mais limpo, branco e imaculado do que o visual e as cenas que guardo na minha memória. Foi um vôo curto e até certo ponto perigoso. Não sei se hoje eu faria novamente, mas valeu cada segundo daquele ar gelado e rarefeito.

Peripécias de Dan na neve.

Vento Norte: Tem algum momento que considera mais especial que os demais?

Danuza: Semana passada retornei ao vôo depois do nascimento da Lis. A Lis está com dois meses agora, estava doente de vontade de voar, e na última semana voltei para o céu, chorei de emoção e alegria pois devolvi ao meu coração as asas e a liberdade!

Tutu e Liz

Vento Norte: Já voou em quantas rampas de voo? Dessas rampas tem alguma que você tem um carinho mais especial?

Danuza: Contei meio por cima deu 52, mas acredito que seja mais. O lugar mais sensacional de todos não é bem uma rampa, é uma duna baixa que você decola do chão, chamada Palo Buque. A rampa fica no norte do Chile no Deserto do Atacama. Você decola literalmente do chão, encosta na duna e estampa*. Para mim não existe lugar mais mágico no mundo. Você voa por horas, horas e horas, brinca de controlar o parapente a tarde toda até o por do sol. Para quem não conhece vale muito a pena conhecer.

Estampa: ganhar altura superior ao local que decolou.

Danuza voando pelo deserto do Atacama.

Vento Norte: O que você considera ser a maior dificuldade no voo?

Danuza: O vôo é algo sensacional, mas ele é bem tirano também, tira de você muito tempo produtivo às vezes. Como toda grande paixão faz você deixar muitas coisas de lado, casa, família e trabalho.
Hoje a maior dificuldade está sendo conciliar a vida pessoal, “ser mãe” com a vontade louca de voar, estou conseguindo graças a Deus ao Daverson, minha Mãe e minha Tia que me ajudam MUITO. O Tutu nosso filho mais velho já vai para a rampa com a gente desde pequeno, é um parceirasso, já tem seu paraquinha de brinquedo e muitas aventuras no currículo com todos os seus 03 anos de idade.

Tentamos conciliar tudo e fazer da vida “Um brinquedo onde todo mundo brinca”. Optamos por viagens e passeios onde possamos incluir as crianças em nossas aventuras. O Tutu já foi até a base do Aconcágua com 01 ano de idade, já nadou com Tartarugas na Isla de Pascua e tem algumas horas de caminhadas por trilhas e montanhas.

Quando optamos por ter nossos filhos, decidimos que iríamos tocar nossa vida normalmente, com o vôo, com nossas aventuras e que adaptaríamos eles a nossa realidade respeitando o limite de segurança de cada um.

Vemos muitos casais e muitas famílias se desestruturarem após o nascimento dos filhos, mulheres ficando em casa e se anulando, e definitivamente não queríamos isso para nós, as crianças vieram para somar, dão uma trabalheira danada, mas vale cada segundo vivido ao lado deles. Queremos voar a vida inteira, de preferência juntos!

Na foto tutu em suas aventuras. Com seu mini parapente (paraquinho) e pelo Aconcágua.

Vento Norte: Você sente algum medo e como lida com ele?

Danuza: Claro! O medo é aquilo que nos mantém vivos. Hoje estou numa fase mais calma do vôo, fiz muita arte já, graças a Deus nada me custou caro, mas tenho plena consciência que inúmeras vezes tive mais sorte que juízo. Com a maturidade você analisa com mais frieza os riscos e é uma conta matemática simples: em uma condição instável eu analiso quais são os prós e quais são os contras. Se tem mais contras do que prós é simples! Eu não decolo! O MELHOR vôo sempre será o próximo.

Vento Norte: Já passou por algum incidente ou acidente, se sim o que houve e qual foi a provável causa?

Danuza: Passei por vários incidentes, nenhum grave, todos 100% por imprudência ou porque eu havia decolado numa condição onde definitivamente eu não tinha técnica para dominar. A última (foram várias), fui pousar em uma etapa de um campeonato em Goval (Governador Valadares) e no pouso não vi um fio de luz atravessando e para não bater no fio estolei* alto e despenquei de costas. Lembro da vela caindo nas costas e de meus joelhos subindo, depois apaguei. Apaguei por stress mesmo, medo, congelei, acordei a caminho do hospital, me deram um remédio venal para dor, acordei ainda meio grogue com a Telminha do meu lado. Não aconteceu nada de mais, não quebrou nem trincou nada, graças a Deus. Depois desse episódio, comecei a ficar MEGA adrenada para voar, foram ANOS decolando no final da tarde morrendo de medo. Tinha medo de tudo: de térmica, de vento forte, de vento fraco. Fui muito teimosa em continuar voando, pensei em parar incontáveis vezes, decolava e pedia a Deus pra pousar, mas logo no outro final de semana decolava de novo.

*Estolar: comando efetuado para desmontar a aerodinâmica do parapente para pousar. Procedimento realizado no máximo com dois metros de altura.

Danuza no deserto do Atacama.

Fiz alguns SIVs (Curso de Simulação de Incidentes em Vôo), até chegar um momento que vôo após vôo, devagarzinho e no meu tempo, recuperei a confiança em voar. Acredito que a decisão mais acertada foi: Regredir para evoluir. Voei minha vida toda de DHV 2 e após 10 anos de vôo comprei uma vela DHV 1-2, bingo! Decisão acertada, pois comecei a voar mais segura, no meu timing e com um equipamento seguro e que de verdade, me levava exatamente onde o DHV 2 me levava. Mais lento, porém com muito mais segurança. Hoje voo numa vela classe EN B equivalente uma vela DHV 1.2, provavelmente voarei minha vida toda nessa classe de equipamento, nela encontrei o prazer e a tranquilidade que precisava para o meu vôo.

Danuza retornando ao voo após o nascimento da Liz. Pouso de Atibaia.

Vento Norte: Deixaria alguma orientação para pilotos que não reconhecem os perigos ou limitações pessoais do voo afim de aumentar a segurança em voo?

Danuza: Acho que a primeira delas: Não entre na onda do efeito grupo. Não é porque piloto X decolou que você deve decolar, talvez ele tenha mais técnica que você para determinadas condições.

Aprenda, estude, seja curioso, leia. Diferente da época que começamos a voar que malemal tinha internet e dependíamos de boas almas trazerem revistas gringas e traduzirem artigos, hoje você encontra muito conteúdo bom de voo na internet. E ninguém melhor que o seu instrutor para esclarecer as suas dúvidas.
Quanto mais conhecimento técnico você tiver mais “sorte” você terá no seu vôo, acredite!

Vento Norte: Que dica você daria para aqueles que estão começando no voo livre ou que pretendem iniciar no esporte?

Danuza: Primeiro, procure uma boa escola! Em Curitiba (A Vento Norte é CLARO) rsrsrsrs.
Todo mundo tem um limite, não force a barra. As falhas e os acidentes acontecem 99,9% por imprudência. O parapente não é perigoso, os pilotos são perigosos, pense que o paraca na mochila não oferece risco algum.

Vento Norte: Se quiser deixar um depoimento para a Vento Norte, pilotos e alunos sinta-se à vontade!

Danuza: Conheço o Márcio desde que comecei a voar. Acho que o Márcio foi da segunda turma e eu fui da terceira ou quarta turma, da escola do Max. Começamos a voar quase que na mesma época, então vivenciamos muito do vôo e da evolução do vôo em nosso estado. Hoje vejo na Vento Norte, uma família linda, que agrega muitos “novos filhos” a essa família, sempre com muito respeito, qualidade de ensino e know how, coisas que só se conquistam com o tempo e muito trabalho. Fiquei muito feliz em saber que temos muitas meninas voando no Paraná. O Paraná sempre foi referência de mulherada voadora.

 

Parabéns Ni & Márcio, vida longa a Vento Norte. Apareçam por aqui! Tem casa, comida, resgate e pouso (pra pousar e pra dormir) rsrsrsrs.
Beijos com carinho e saudades!

Dan!

Fotos arquivo pessoal: Daverson Marin/Ajota/Guilherme Quentel/Mauro Tamburi

Equipamentos de Voo

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Os equipamentos de voo são adquiridos como itens separados, sendo o parapente propriamente dito ou velame; selete (cadeira); pára-quedas reserva; mosquetões (conectam parapente, selete, reserva); rádio VHF; capacete; variômetro; GPS e outros itens de gosto pessoais, mas não obrigatórios.

Para cada piloto existe um equipamento adequado, que varia de acordo com a sua estatura, peso, habilidade e objetivo.

Parapente é denominado também de paraglider, paragliding, paraka, paraca, asa, velame, glider e equipo.

Piloto Iniciante (ou com baixa frequência de voo ou que busca apenas o prazer de voar curtindo a paisagem):  o equipamento é projetado visando prioritariamente a segurança, aceitando alguns erros cometidos pelo piloto devido à inexperiência. Na maioria dos colapsos, o parapente reabre sem que o piloto reaja.

Parapente Sycross – Intermediário / Selete competição

Piloto Intermediário:  o equipamento é projetado visando maior performance, mas também a segurança. Permite ainda alguns erros, mas já exige certa experiência do piloto com relação ao conhecimento de seu equipamento e como este se comporta. Exige certa reação do piloto em caso de colapso.

Piloto de competição ou acrobacia: o equipamento é projetado visando prioritariamente performance superior. Como não permite erros, exige maior experiência do piloto com relação à atuação e ao comportamento do velame. Qualquer colapso demanda ação correta e precisa do piloto para reabertura.

Selete refere-se a “cadeirinha” que o piloto esta acomodado.

Selete competição

Selete para piloto iniciante: projetada com um sistema de airbag, protege em caso de pousos não convencionais.

Selete para piloto de competição ou acrobacia: projetada com sistemas que diminuem o arrasto, favorecendo a aerodinâmica.

Selete reversível para voos de lazer e/ou de montanhas.

CONSIDERAÇÕES

Em nossas aulas práticas fornecemos equipamentos completos e homologados para o nível de iniciação no esporte. O que garante maior qualidade, segurança e facilidade no aprendizado. Damos a oportunidade do futuro piloto conhecer e praticar o esporte sem se preocupar em adquirir o equipamento em um primeiro momento. O aluno poderá avaliar seu investimento futuro com sabedoria e critérios e quando o momento certo chegar.

Por se tratar de um esporte radical (e o que você procura é diversão e não sustos), não recomendamos a compra de equipamentos antes de um mês de aula e sem a orientação de seu instrutor. Desta forma, evitamos decepções pela compra de um parapente não adequado ao seu tamanho, peso ou habilidade, ou ainda, um equipamento condenado, que coloca sua integridade física em risco (além da perda financeira). Lembre-se: os equipamentos possuem vida útil.

O Instrutor tem condições de lhe orientar na aquisição de seu primeiro equipamento, que deve ser uma vela que tenha a classificação EN A ou EN B low, com tamanho adequado ao seu peso, nem maior, nem menor. Uma selete também adequada para o seu biotipo, reserva de acordo com o seu peso, capacete e rádio, completam o equipamento básico.

Este equipamento inicial deverá ser usado por no mínimo de 2 a 3 anos ou após 100 a 200 horas de voo, quando o piloto, se desejar pode trocar a vela por um nível acima, ou seja, a EN B hot. Lembre-se que sua vela deve ser revisada anualmente para evitar colapsos estruturais e manter os padrões de homologação do fabricante.

Grupo no WhatsApp – Notícias dos Ares

No aplicativo do Whatsapp temos um grupo denominado “Notícias dos Ares”. Indicamos que entre no grupo caso pretenda fazer o curso ou se informar sobre.
Neste grupo apenas os administradores (nós) contamos o que esta rolando aqui na escola, como aulas práticas, expedições, festas, aulas teóricas, artigos esportivos, dicas variadas e outras coisitas que achamos legal. Ah, e é bom você saber que escrevemos muito pouco por lá, assim não atrapalhamos o cotidiano dos membros do grupo.

Para participar do grupo basta clicar aqui e será automaticamente direcionado para o grupo do “zap” Notícias dos Ares.

Artigos que podem te ajudar:

Pequeno Evangelho dos Aviadores

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Voar é um milagre. Que o digam os dois terços dos seres vivos aos quais a vontade divina concedeu tão abençoada graça.

Por isso, considero todos eles os grandes rebentos dos céus.

Quando vejo um urubu a planar numa boa térmica, penso, no mais doce dos dos enlevos: lá vai um predestinado de Deus!

Confesso que a todos sem exceção, rendo minhas reverências.

Não discrimino nem mesmo o mosquito. Sei muito bem que se trata de um bichinho sem grandeza, mas confesso se eu tivesse que escolher entre duas sinas, eu preferiria ser um mosquitinho à toa, a ser, por exemplo, um sapo. Um mal ou bem, é a brisa; o outro é o brejo.

Ignoro os motivos que levaram o Senhor a negar ao homem o privilégio de voar. Lastimo, mas não chegaria, jamais, ao pecado da blasfêmia. Afinal, se Deus não nos dotou de asas para voar, deu-nos, ao menos, o privilégio de sonhar. E foi a salvação.

Nas asas da imaginação o homem teimou, teimou até que, enfim, desgrudou-se desse vale de lágrimas e, hoje, aí está em pleno ar, convivendo com as nuvens, desfrutando a intimidade dos pássaros, confidente dos ventos.

Há quem veja no aviador um ser heroico. Pois eu os vos digo do alto do meu ultraleve: nem heroico, nem épico. O homem que voa é, sobretudo, um ser utópico. Digo mesmo: é um ser místico. Pois é voando que o homem sente o tamanho de Deus. Norte, Sul, Leste, Oeste! Seja qual for o rumo de seu devaneio, o homem estará sempre a invocar as bênçãos divinas. Bênçãos que levaram-me a inscrever, na capelinha de Nossa Senhora do Loreto, no Clube Céu, este pequeno Evangelho dos Aviadores:

Pelos anjos-da-guarda, que nos rodeiam, celestiais;
Pelo milagre do sol, que ilumina nossos caminhos;
Pela rosa-dos-ventos, estrela-guia que norteia nossos rumos;
Pelas nuvens, que das alturas no contemplam, poéticas;
Pelos pássaros, que nos ensinam a voar;
Pelo horizonte, escala infinita de nossos devaneios;
Pelos aviões de nossa frota, que nos conduzem fraternais;
Dai-nos, Nossa Senhora de Loreto, a proteção do vosso santificado manto;
E velai por nós, aviadores, assim na Terra como no Céu.

 

Texto de Armando Nogueira

Magia do Voo

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A história da humanidade esta repleta de figuras que simbolizam o ato de voar, dos seres alados, como anjos, fadas, elfos, o belo cavalo Pégaso, tapetes mágicos, super-heróis aos mitos como o de Dédalo e Ícaro. Até mesmo as asas representam pontes entre o mundo concreto e o etéreo, fazem a ponte entre o homem e o Deus, entre o homem e seus sonhos, entre o homem e seus desafios.

Voar, ultrapassar limites, alçar grandes voos na vida, simboliza o desejo da liberdade, da emoção, da transcendência da alma, da insustentável leveza do ser, representa o ilimitado, que podemos voar se quisermos, expressa a vastidão da alma humana e seu desejo de superação.

É raro encontrarmos alguém que nunca tenha sonhado que estava em voo. Certamente um dos sonhos mais fascinantes, antigo e ousados da humanidade que inspirou diversos homens como Leonardo da Vinci ao Santos Dumont, à desafiar a gravidade.

Leonardo da Vinci tem uma máxima repetida por todos os atuais pilotos de parapente:

“Uma vez que tenha provado o voo, o homem estará condenado a vagar pela terra olhando para o céu, lá estiveste e para lá queres voltar, pois descobriu o porque os pássaros cantam.”

Não seriam todos esses os sentimentos quando voamos de parapente, tranquilidade e adrenalina, o sentimento de ser tão grande e poderoso ao mesmo tempo tão pequeno diante da amplitude e força da natureza.

Nos damos conta que somos protagonistas de uma história de magia e de aventura em um estreito paralelo com a fantasia e as nossas vidas terrestres que por vezes voamos baixo e só ciscamos em quintal conhecido, em outros momentos agimos como águias, que se elevam bem alto em busca de uma visão panorâmica de amplitude, e que de vez em quando precisamos de um empurrãozinho para descobrirmos que temos asas e isso ocorre quando as circunstâncias da vida nos arremessam sem paraquedas no espaço e começamos finalmente a voar.

O parapente é capaz de nos proporcionar todos os significados da palavra voar, muda a nossa vida e como encaramos os desafios. Superamos com respeito.

Somos super heróis, corajosos ou loucos ?

Nem um nem outro, apenas pessoas comum vivendo esta grande aventura que se chama VIDA!

Para alguns isto é uma loucura, mas para muitos isto é VIVER!

Digno das minhas asas

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Só me sinto digno das minhas asas se eu as utilizar para ser livre, para voar longos horizontes, para dar exemplo aos que almejam vislumbrar essa sensação única de poder voar para qualquer canto e escolher o local para pousar seguro e cheio de afeto acolhedor.

Só me sinto digno de minhas asas quando reunido com os amigos alados agregamos aprendizados e experiências, momentos e parcerias, afetos e confianças, entre os voos e conversas na busca de compartilhar das emoções e sensações indescritíveis desta jornada.

Só me sinto digno das minhas asas se quando estou voando é para simplesmente contemplar os momentos únicos de um voo alto e sereno, e que apenas reforce minha serenidade e compaixão nas horas que estou com os pés no chão, enfrentando problemas banais e ordinários da existência humana.

Só me sinto digno de minhas asas se este ato de liberdade do voo livre apenas sintonizar com o meu âmago da existência, da minha curta existência, da grandeza do momento, e da pequenez do ser humano que sobrevoa pastos e planícies.

Só me sinto digno de minhas asas quanto esse ato que brota do peito o qual vem sendo almejado através dos sonhos.

Que a liberdade de voar não seja uma fuga para a própria liberdade, que seja simplesmente ato necessário e desinteressado de si mesmo… Seja genuíno em sua vontade, e por exemplo e admiração, arrebate os corações das pessoas normais onde, de quando em vez, sentem aquela inquietude de buscar seus sonhos e conquistas, esquecidas pelo tempo…
 E você, meu caro e minha cara, amiga e amigo alado, só se sente digno de suas asas quando?
Por Marcelo Osiecki – 15/03/2017
Marcelo, tem 28 anos, é empreendedor e gestor de empresas e projetos. Ingressou no curso de parapente na Vento Norte em fevereiro de 2016, e até a data  (28/02/2017) totalizava 20h48minutos de voo livre. Que venham muitas horas de lindos voos Marcelo!

 

Prazer de Voar

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O homem, quando supre suas necessidades básicas (água, comida, uma casa, etc.) passa a procurar algo mais. Algo que dê sentido a sua vida; algo que lhe dê prazer.

O voo livre é um dos esportes que mais retribui seu praticante com prazer. Quem voa sempre tem várias lembranças de momentos inesquecíveis da sua história como piloto. Eu lembro da primeira vez que tirei o pé do chão. Estava mais uma vez correndo com um bacalhau amarelo na escolinha. Finalmente tinha conseguido colocar aquele parapente arisco na cabeça. Eu estava correndo e, de repente, ele me tirou do chão. Não durou mais que 3 segundos, mas guardo este momento na minha memória até hoje.

É interessante como sempre sentimos prazer no voo, sejam eles pequenos ou grandes. Existem situações em que todos sentem prazer. Uma grande termal é um prazer, achar uma térmica a 20 metros do chão é um prazer, chegar na base de uma nuvem é um prazer também. Em outros casos cada um tem seu prazer particular. Eu adoro estar subindo a montanha e olhar para fora do carro, vendo as coisas ficando pequeninas lá embaixo. Adoro o vento levemente frio da decolagem e a brisa de frente.

E os cheiros? Para a maioria das pessoas, cheiro de protetor solar lembra praia. Eu lembro de uma rampa de voo livre. E o cheiro da selete e da mochila? Eu já sentia isto no paraquedismo. É um cheiro indescritível, sem igual. Ele me lembra muitos momentos bons que já tive voando.

E no voo livre o prazer é compartilhado entre os pilotos. É muito legal ver alguém subindo em uma térmica ou contando um voo que fez. Hoje mesmo fomos voar, mas acabou desabando uma chuva torrencial. No bar do pouso estávamos relembrando um ótimo voo que fizemos no Espírito Santo, em Ubá. Um dos locais mais lindos que já voei. Um vale que lembra os vales europeus, só que em miniatura. Aquela conversa me fez voltar naquele dia, sentir o prazer de pegar um salão de 5, quando eu estava quase pousando e envaretar todo mundo. Neste dia pousei depois de Cachoeiro do Itapemirim, a trinta quilômetros da decolagem, e me senti realizado porque o voo foi muito bom e batalhado.

Nada como o sentimento do dever cumprido e o sorriso de felicidade estampado na cara do voador!

Extraído da página 19 do livro Parapente Brasil.

Glossário: Bacalhau: parapente velho e poroso./ Estampar: voar alto. / Envaretar: subir rápido ultrapassando a altura dos demais colegas de voo. / Salão: térmica grande

Glossário: Merreca

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A primeira vez que ouvi sobre merreca, era então um piloto de paraglider recém formado. Não entendia porque os pilotos mais experientes tanto falavam daquela tal merreca. A princípio achei que tinha algo relacionado com a ave marreca, porém a prática do voo nos leva ao conhecimento, e não durou muito para constatar na pele o significado de merreca.

Quando ela se faz presente, o espírito humano da solidariedade baixa na rampa. Os pilotos ficam cheios de gentilezas ao oferecerem para outro decolar no seu lugar. Não há brigas por espaços e as conversas giram em torno de assuntos banais, enquanto a merreca domina o pedaço. Não existe ansiedade nos rostos e domina, isto sim, uma placidez nos semblantes. Merreca, além de ser um estado atmosférico caracterizado por poucas ascendentes, é um estado d’alma em que ficamos mais ou menos como as birutas: estaqueados, pano baixo, olhares perdidos.

Merreca é a única vez em que o novatão tem seu papel valorizado. Ele vai decolar de qualquer jeito para o digno prego (voo de pouca duração), por isto os gaviões velhos ficam observando com longo interesse, já que aquele voo será uma espécie de balão de ensaio. O novatão poderá mapear alguma termal canhão escondida nas terras eremas e deflagrar uma corrida na rampa, ou seja, o fim da merreca é também o fim da solidariedade entre os povos e o início da briga de quem decola primeiro para aproveitar o ciclo.

Os pilotos nunca param para pensar sobre a merreca. De onde vem este nome?
A gente entra no voo livre e o adota automaticamente, mas o estado de merreca merece ser estudado, pois longe de ser passividade, ele torna-se ação. Afinal, ouve-se muitas vezes que “tal sujeito merrecou”. Neste caso a merreca, ao contrário daquela de rampa, se transforma num sofrimento atroz. A rapaziada toda estampada e o infeliz merrecado no pouso porque decolou no ciclo errado. Longe de filosofar sobre as diversas facetas da merreca, o desgraçado vai praguejar intensamente contra a sua má sorte.

À medida que um piloto aumenta a sua experiência no voo, seu medo da ação catastrófica de merrecar parece ganhar asas. Pilotos experientes são mais suscetíveis à volúvel fortuna dos ventos. Tendem a sentir com o tempo uma incrível vergonha de merrecar. Tão logo chegam ao chão em virtude de uma merrecada, a maioria nem são mais vistos, ato contínuo chamam seus resgates e se esfumaçam do local do crime.

Encarando as coisas de um ponto de vista mais filosófico, entendo que o estado espiritual da merrecagem é uma rara oportunidade da gente se dar conta que, desafortunadamente, não nascemos com asas. A merreca nos coloca no nosso devido lugar, o de que somos usurpadores de um elemento que não é nosso. Os pássaros, mais precisamente os pássaros planadores, recorrem ao bater de asas ou simplesmente pousam numa árvore, quando a merrecada se instala. Nós não temos este poder e acabamos “caindo” para o nosso desespero.

(Qual piloto não foi atrás de um urubu traidor?)

Desta mesma forma, a merreca pode servir como uma ação recicladora do piloto atento aos desígnios da natureza. Ele pode descobrir que se foi açoitado hoje, amanhã poderá estar brincando com uma farofa, ai terá esquecido da dor, da vergonha e fará questão de comparecer diante dos companheiros.
Logicamente se demorará no bar, pagará algumas cervejas e o seu sorriso será um sol sempre a brilhar. Quanta diferença das merrecadas! Todavia, certamente a merreca estará rondando a sua vida e quando ele menos espera…. tcham! Lá esta ele merrecado numa roubada, com cara de poucos amigos e uma vontade louca de sumir do mapa. Ces’t la vie, dizem os franceses, mas digamos que, para animais nascidos sem asas, até que não podemos reclamar muitos dos Deuses.

Texto de Isaias Malta da Cunha

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