Encontrei esta divertida crônica na página 44, do livro Trinta e Poucos, do autor Antonio Prata. Compartilho com vocês, porque tudo que é do ar, inspira.

O titulo é “Expiar”

Estava trabalhando na varanda, com o laptop no colo, quando ouvi a batida, leve e abafada, no jardim. Olhei para a frente ainda a tempo de ver o pequeno borrão quicando na grama. Demorei um pouco para entender do que se tratava: um passarinho, recém-caído do céu, agora jazia inerte a dois metros de mim. Morto?

Eu, nascido e criado em apartamento, jamais havia presenciado a morte de um passarinho. Então é assim? Uma bela tarde tá ele lá voando, minhocando suas caraminholas e, ploft!, despenca das nuvens?

Não deixa de ser poético. Sempre discordei desse povo que torce pra morrer dormindo. Quando a indesejada das gentes chegar, também quero ser pego em pleno voo; aos cento e vinte e quatro anos, claro, mas bem desperto, pra poder olhar ao redor uma última vez, dizer, “ah, então era isso?”, encarar a estraga-prazeres de frente, dar-lhe uma banana e, enfim, deixar de existir.

Um movimento na grama, contudo, me sugeriu que ainda era cedo para as funestas divagações: o pássaro não estava morto. Com dificuldade, se ergueu e assim ficou, petrificado. Da minha cadeira, vi seu coração pulsando, aflito com as últimas voltas do pião. Levantei com cuidado pra não assustar o bicho, e fui até ele. Nem se mexeu. Mais alguns suspiros e já era, pensei, consternado.

Passarinhos são os padroeiros dos cronistas. Machado de Assis comparou o folhetinista ao colibri, “que salta, esvoaça, tremula, […] e espaneja-se sobre todos os caules suculentos.” O primeiro livro de Rubem Braga foi O conde e o passarinho. O último do meu querido Humberto Werneck chama-se O espalhador de passarinhos. Fernando Sabino tem uma crônica antológica sobre sabiá. “Bichos do sítio”, um dos lindos textos do recém-lançado Certos Homens, do Ivan Ângelo, começa com um urubu e termina com uma galinha. (Passarões, é verdade, mas pássaros, mesmo assim).

O mínimo, portanto, que eu podia fazer pelo nobre colega era proporcionar alguma dignidade a seus instantes finais. Pensei em botar um Chet Baker pra tocar, mas me pareceu exagerado. (Além do mais, vai saber de seus gostos musicais? Imagino não haver nada pior, na hora da morte, do que uma trilha sonora equivocada) Me contentei em lhe trazer um pires com água fresca. (Não sei por quê, mas me veio a ideia de que morrer dá uma sede danada.)

Por quinze minutos ficamos ali, frente a frente. Um quarto de hora durante o qual ele não moveu, literalmente, uma pena. Então, como se fosse a coisa mais natural desse mundo, chacoalhou a cabeça, gingou o pescoço no melhor estilo Axl Rose, deu um salto sobre o pires um sinal inconteste de vitalidade, e, sobretudo, de humor: um belo e alvinegro cocô de passarinho, teste de Rorschach em que vi estampada a minha ignorância sobre a morte, sobre a vida e, acima de tudo, sobre passarinhos.

Voltei à poltrona, pus o laptop no colo e retornei minhas chãs escrevinhações.

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Antonio Prata é escritor, cronista e roteirista brasileiro de cinema e novelas. Tem 10 livros publicados, entre eles o Meio Intelectual, Meio de Esquerda – Felizes quase para sempre – Nu de Botas – Trinta e poucos.

Já sabem, adoramos compartilhar livros, então caso tenha interesse em algum do Antonio, e você seja Vento Nortenho e Nortenha, às ordens, ou melhor a disposição para empréstimo.

Voltemos, o Antonio escreve semanalmente para a Folha de S.Paulo, na edição dos domingos, na coluna Cotidianos e possui um blog no mesmo jornal com suas crônicas: Colunista Antônio Prata.

Mais do que qualquer escritor em atividade, Prata é cultor do gênero que fincou raízes por aqui, consagrado por gigantes do porte de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues.

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